sexta-feira, 21 de março de 2008

UM POUCO DE SUA HISTÓRIA

Introdução
Antoine Hercule Romuald Florence nasceu em 1804, em Nice.
Órfão de pai, antes dos quatro anos de idade, residiu em Mônaco, durante quinze anos, com sua mãe e irmãos. Dois importantes acontecimentos mudaram a trajetória de sua vida: o ingresso na Marinha Real Francesa e a participação na Expedição Langsdorff.
Ingressou na Marinha Real Francesa aos dezenove anos de idade, como aprendiz de marinheiro. E, em abril de 1824, como tripulante do navio francês “Marie Thérèze”, chegou ao Rio de Janeiro onde resolveu permanecer. Em 1826, durante os preparativos para a Expedição Científica, chefiada pelo Barão Von Langsdorff, esteve hospedado em Porto Feliz na casa do médico e político Álvares Machado e conheceu sua filha, Maria Angélica, com quem se casou em 1830, fixando residência em Campinas, no Estado de São Paulo.

Hércules foi, principalmente, artista, aventureiro, cientista e inventor.

O Artista
Seu pai foi professor de desenho em Nice. Seu avô materno estudou pintura em Roma. Um de seus tios maternos ganhou o primeiro prêmio de pintura na Academia da França. Outros membros da família de sua mãe também tinham predileção pela pintura. Hércules, portanto, herdou a predisposição genética para a arte pictórica além de receber influência do ambiente doméstico. Assim, desde cedo manifestou sua inclinação natural para o desenho que aprendeu sem mestre. No Brasil, em setembro de 1825, foi contratado para a função de segundo desenhista da Expedição Langsdorff e fez desenhos e aquarelas de índios, escravos, plantas, animais, rios, cachoeiras, cidades e lugarejos que visitou, durante a viagem. Quando se interessou pela formação das nuvens, os céus de Campinas lhe inspiraram belas aquarelas. E elaborou, sob esse tema, um estudo que denominou “Atlas pittoresque des ciels” ou “Traité des ciels, à la usage des jeunes paysagistes”.
Desejava reproduzir exatamente as cores e os diversos aspectos do céu, pois acreditava que era possível, através da pintura, transmitir todos os efeitos da luz como eles se manifestam na natureza. Em 1832 desenvolveu alguns estudos que denominou "Tableaux Transparents de jour" que consistia em produzir pequenos furos em determinados espaços que representavam as luzes e os reflexos na tela. O efeito era conseguido quando se observava o quadro em um aposento escuro e com a luz de vela, ou do sol, incidindo atrás da pintura. Pintava também sob a visão de cientista e isso pode ser conferido, por exemplo, na aquarela que fez dos Apiacás, cujas aldeias visitou em abril de 1828. Hércules foi professor de desenho no Colégio Florence, destinado à educação feminina, fundado em Campinas, em 1863, pela sua segunda esposa, Carolina Krug, natural da Alemanha. A arte lhe inspirou algumas pesquisas como: ensaio sobre a impressão dos quadros a óleo ou estampas coloridas, emploi de l’huile de ricin dans la peinture à l’huille e o que denominou de: cellographie, aquarrélographie, pintura solar, pintura cisparente e stereopintura que seria um processo de pintura a óleo para produzir os efeitos de luz como ocorrem na natureza. Além de artista do lápis e do pincel comprovou, também, ter sido artista da pena. E, como escritor e poeta, seu diário de viagem se destaca pela correção e nitidez de suas descrições.

O Aventureiro
Esta fase de sua vida, representada pelas viagens que fez, por via terrestre, marítima e fluvial, iniciou na adolescência quando foi influenciado por algumas leituras como “As aventuras de Robinson Crusoé”, do escritor inglês Daniel Defoe.
A leitura de Robinson lhe despertou o espírito de aventureiro e desejou viajar e conhecer o mundo. Aos dezesseis anos, em navio fretado por rico comerciante de Nice, embarcou para Antuérpia e, sem conseguir emprego, logo retornou para Mônaco. Aos dezenove anos foi aceito na Marinha Real Francesa como aprendiz de marinheiro.
Em fevereiro de 1824, como tripulante do navio “Marie Thérèze” partiu para uma viagem de circunavegação. Após quarenta e cinco dias, navegando pelo Atlântico, desembarcou no Rio de Janeiro onde se empregou em loja de tecidos e resolveu permanecer. Tinha vinte anos de idade e considerava que os verdadeiros bens da vida consistiam na simplicidade, no trabalho e na tranqüilidade da imaginação. Tinha avidez pelo saber, desejava conhecer o mundo, se instruir e progredir no estudo da ciência.
Aos vinte e um anos de idade foi contratado pelo Barão von Langsdorff para participar de uma Expedição científica ao interior do Brasil e, durante três anos e seis meses, viajou por terra, mar e grandes rios, conhecendo diversas cidades.
Sua fase de aventureiro foi interrompida antes dos vinte e seis anos quando se casou e se instalou em Campinas.

O Cientista
Aos dezesseis anos de idade, quando se dedicou ao estudo de matemática e física, fez projetos sobre vastos canais de navegação e sonhava com máquinas hidráulicas e movimento perpétuo. Aos dezessete anos idealizou uma bomba para puxar água que denominou de Nória hidrostática. Tinha bom conhecimento sobre química que lhe foi muito útil para a concepção, elaboração, pesquisa e execução da fotografia, entre os anos de 1832 e 1839. Seu primeiro trabalho de estudo e pesquisa e que revelou seu pensamento científico foi sobre a Zoophonie que publicou em 1831 com o título de: "Recherches sur la voix des animaux ou essai d’un nouveau sujet d’études, offert aux amis de la nature”.Era artista com observação de cientista e cientista com intuição de artista. Em seu manuscrito descreveu os estudos e as pesquisas que fez sobre a descoberta da fotografia. Escreveu também sobre outros assuntos, como: nória hidro – pneumática, estudos dos céus para o uso de jovens paisagistas, meios de imitar perfeitamente o luar e o brilho das estrelas nos quadros transparentes, a compressão do hidrogênio para ser usado na pilotagem dos aeróstatos, e um sistema para a fabricação de chapéus de palha.
Em 1841 publicou um folheto intitulado “Ensaio sobre a impressão das notas do Banco por um processo totalmente inimitável, precedido por algumas observações sobre a gravura das mesmas notas, e o modo de se conhecer as que são falsas”.
Em 01 de agosto de 1853 publicou um folheto poligrafado composto de 16 páginas sob o titulo “Descoberta da Polygraphie”.

O Inventor
A fase da invenção teve início em 1830, quando estava residindo em Campinas.Para imprimir seu estudo sobre a Zoophonie iniciou as pesquisas relacionadas com um sistema mais simples e acessível de impressão que denominou Polygraphie. Uma das propriedades desse sistema era permitir a impressão de todas as cores simultaneamente. O objetivo de Hércules era, também, a reprodução de seus escritos e desenhos. Com o passar dos anos, fez uso prático da Polygraphie mantida em constante aperfeiçoamento até que em sua fase mais adiantada não havia necessidade da prensa para imprimir. Desejava obter a melhor impressão, da maneira mais simples possível. E, se dedicando a essa nova atividade, concebeu a fotografia, ou impressão pela luz solar, em 1832.
Sua primeira experiência fotográfica se deu em 15 de janeiro de 1833 quando improvisou uma câmera escura e obteve, depois de quatro horas de exposição, a imagem do que podia ser observado através de uma das janelas de sua casa em Campinas.
Usou o processo fotográfico para obter cópias por contato de diplomas maçônicos e de rótulos de farmácia, pois sua intenção era usar a luz solar como método de impressão.
Abandonou suas pesquisas depois que soube, em 1839, que Daguerre havia, na França, descoberto o modo de fixar a imagem em chapa de cobre. Dificilmente a invenção da fotografia não seria anunciada naquela época, pois vários pesquisadores europeus estavam envolvidos com sua descoberta. Todavia, ao contrário do que sucedeu na Europa, sua invenção no Brasil, mais precisamente em Campinas, se deveu quase que tão somente à genialidade de Hércules pois, segundo alguns autores, o meio social, econômico e cultural em que ele vivia não lhe oferecia, de maneira satisfatória, as condições apropriadas para seu trabalho. Seus estudos e pesquisas relacionados com as invenções também incluíram: Nória Hidrostática, que seria uma bomba hidráulica de alta pressão destinada à irrigação, papel inimitável, emprego dos tipos – sílabas, quando emendou cada consoante com uma vogal para simplificar o trabalho da composição tipográfica, dicionário sinóptico que sempre é aberto na página onde está a palavra que se procura e pulvografia que é impressão por meio do pó.

Previsões e pioneirismo
Quando tinha apenas vinte e um anos já denotava sua grande capacidade de observação e dedução. Esteve com essa idade, durante alguns dias, em Cubatão e constatou que o clima naquela área nunca seria saudável, pois as montanhas ao seu redor não permitiam uma boa circulação do ar. E, de acordo com sua previsão, Cubatão, muitos anos mais tarde, foi considerada uma das cidades mais poluídas do mundo, com a produção de fumaça de suas fábricas.
Foi um dos pioneiros em trabalho de pesquisa no Brasil, ao publicar seu estudo sobre a Zoophonie, a nova ciência que havia descoberto e que no século vinte passou a ser conhecida como Bioacústica.
Foi o primeiro a tornar evidente que o sinal sonoro de comunicação animal é especifico. Previu que florestas seriam destruídas pelo fogo e pelo próprio homem e, como resultado, animais seriam extintos ou dizimados. Essa seria uma das razões para que a descrição das características dos animais incluísse, também, o tipo de som vocal que produzem. Uma das comprovações atuais do que observou é o fato de que em florestas tropicais densas, que não permitem a visualização de pássaros, suas espécies sejam identificadas apenas pelo tipo de canto que emitem.
É considerado “O Pai da Bioacustica” pelo professor e ornitólogo Jacques Vielliard.
Sabia que a impressão teria a facilidade dos dias atuais, ao escrever: “deve ser tão fácil imprimir, como escrever com pena, tinta e papel”. E com o uso prático da Polygraphie, introduziu a impressão gráfica no interior do Estado de São Paulo.
Foi um dos precursores mundiais da fotografia e o pioneiro da América, segundo Boris Kossoy.
Foi pioneiro no registro do termo photographie.
Foi precursor no uso da amônia para auxiliar a fixação da imagem.
Foi pioneiro no uso do papel em ensaios fotográficos.
Em 1833, aos vinte e nove anos, escreveu que seria possível retratar uma pessoa e, a partir da imagem negativa, obter a positiva. Em julho desse mesmo ano, citou que seria encontrado um meio de fixar no papel as cores dos objetos fotografados.
Foi considerado um pioneiro pesquisador das nuvens pelo meteorologista Rubens Junqueira Villella.
Instalou a primeira tipografia em Campinas onde foi impresso, em 1842, o primeiro jornal do interior do Estado de São Paulo, denominado “O Paulista”.
Foi o primeiro a fazer um relato detalhado a respeito dos índios Apiacás. Foi quem primeiramente ordenou e organizou o material da Expedição Langsdorff.
Foi o responsável pela divulgação pioneira a respeito dos feitos da Expedição, com a publicação em 1875 de seu diário de viagem, traduzido pelo Visconde de Taunay que o considerava Patriarca da Iconografia Paulista.
Em seu diário de viagem fez detalhadas descrições das palmeiras que julgava belíssimas. Escreveu que elas representavam um pequeno templo onde se via a coluna, o capitel e a abóbada. E em 1852 idealizou uma sexta ordem de arquitetura usando a palmeira como modelo, lhe dando o nome de Ordem Brasileira. Hoje, um projeto desse tipo, seria considerado uma aplicação da biônica na arquitetura.
Teve importante papel na etnografia e na iconografia do país, retratando a paisagem, os rios, a vida econômica, a mentalidade, os usos e costumes da população.
Para o historiador Komissarov que o considera o “Leonardo da Vinci” do Brasil, suas aquarelas, além do significado científico, se destacam também pela arte pessoal que, até o momento, não foi reconhecida.
E o zoólogo Paulo Vanzolini menciona a fina qualidade artística de suas obras.
Enfim, segundo o escritor Mário Carelli, estudiosos contemporâneos reconhecem que Hércules foi o pintor, topógrafo, etnográfico, e naturalista mais fidedigno do Brasil do início do século XIX.

Conclusão
O sonho do jovem Hércules era viajar pelo mundo e, como tripulante de um navio de circunavegação, desembarcou no Rio de Janeiro onde resolveu permanecer. Em seguida, participou da Expedição Langsdorff. Foi assim que passou a viver distante de sua terra natal, fixando residência em Campinas onde, depois de dois casamentos e muitos filhos, veio a falecer aos 75 anos de idade. Não conheceu todas as regiões da Terra, como pretendia, mas deixou aos seus descendentes, além de sua história de vida registrada em autobiografia, uma rica herança genética. Pois seu talento revelava a sensibilidade e a intuição do artista, a coragem e a ousadia do aventureiro, a sabedoria e a perspicácia do cientista e a criatividade e o engenho do inventor.
(Autor: Francisco Florence)

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