sexta-feira, 21 de março de 2008

ZOOFONIA

Hércules Florence foi também um pesquisador e quem primeiramente ordenou o material da segunda etapa da expedição Langsdorff. Uma de suas iniciativas na área da pesquisa foi a tentativa de anotar em pauta musical os sons produzidos pelos animais do Brasil. Quando se encontrava no Rio de Janeiro, em 1829, logo após voltar da viagem fluvial, a lembrança do som emitido por inúmeros animais selvagens que ouvira, lhe sugeriu a idéia de inventar novos sinais musicais que permitissem reproduzí-los. Desenvolveu um método próprio para o registro desses sons e escreveu um estudo a respeito do assunto que publicou em 1831, sob o título:
" Pesquisas sobre a voz dos animais ou ensaio de um novo objeto de estudos, oferecido aos amigos da natureza ". É possível que seu memento tenha sido o primeiro trabalho de pesquisa escrito e impresso no Brasil, revelando seu pioneirismo e a visão de quem estava muito além do homem comum de seu tempo. Ele deixou também o manuscrito
" Memória sobre a possibilidade de descrever os sons e as articulações da voz dos animais " que enviou para a Rússia e pertence ao acervo da expedição Langsdorff.
Hércules, que era autodidata e cuja curiosidade estava relacionada com todos os aspectos da natureza, transcreveu os sons emitidos pelos animais percebendo que se tratava de sinais específicos de comunicação e denominou seu estudo de zoofonia. Durante sua viagem com Langsdorff ao interior do Brasil, teve oportunidade de verificar a variabilidade de sons produzidos pelos animais, segundo as espécies. À medida que se deslocava de uma região para outra se surpreendia com os gritos de animais que lhe eram desconhecidos enquanto que outros, já familiares, ou desapareciam, ou se faziam ouvir com alguma modificação na emissão sonora. Quando a expedição subiu o manso curso do rio Paraguai ouviu, vindo dos bosques, o canto gutural dos bugios reunidos nas árvores. Um determinado grito deles, rouco e repetido com força, anunciava a presença do jacaré e seus urros, como se fossem extraordinários miados, avisavam a aproximação da onça. O anhuma - póca, nas margens alagadas do rio Paraguai, era como o bater do sino nos campos. O socó - boi, de manhã e à noite nos lagos e brejos, lembrava o mugido das vacas. A saracura, em monólogos na solidão era como se conversasse sozinha em alta voz. O aracuã gritava como uma galinha assustada enquanto sua fêmea, e companheira inseparável, repetia, alternadamente, as mesmas notas de seu canto. Quando Hércules, certa manhã, atravessou um florido campo, pôde ouvir o alegre cantar da seriema, enquanto que as horas ardentes do dia eram marcadas pelo zunir das cigarras e o entardecer vinha com o piado triste e plangente da jaó. Ao navegar os rios entre as regiões do Diamantino e Pará, Hércules notou que os sons emitidos pelos animais mudavam conforme se diversificava o aspecto da natureza. Ouviu, naquele território, o pequeno pássaro que chamavam de tropeiro porque seu assobio se parecia com o de um condutor de mulas. Durante a noite se sentia incomodado pelo coaxar dos sapos que se assemelhava ao som de um tambor batido com força e ritmo. Em seu estudo Hércules destacou que, embora se procurasse saber tudo a respeito dos animais, através de desenhos e descrições, não havia muita preocupação em caracterizar o tipo de som que emitiam. Apesar disso, os horrores das trevas eram representados pelo canto de aves noturnas; o terror da solidão dos desertos, pelos gritos das feras; uma agradável paisagem, pelo gorjeio dos pássaros e o alvorecer era retratado pelo canto do galo e o poente pelo chiar das cigarras ou pelo mugido das vacas. Assim, observava que havia uma harmonia entre o som produzido pelos animais e as localidades e os horários em que podia ser ouvido. Onde a natureza parecia triste, só se ouviria sons tristes. Nos desertos áridos da Arábia o viajante nunca teria o som agradável da grande quantidade de animais do Brasil e num rochedo sem vegetação do oceano, os gritos das aves combinariam com o ruído produzido por ondas e ventos. Ao descrever o canto da araponga, Hércules transcreveu uma fábula que os caipiras contavam. Certa vez, a onça e a araponga fizeram uma aposta para saber qual das duas se assustava com o maior grito que uma delas fosse capaz de emitir. A onça foi que iniciou, e usou de toda força possível para produzir seu tremendo urro mas a araponga nem se abalou. Em seguida, a araponga insistindo em seu canto tremido e suave como se fosse a lima no ferro, um ruído a princípio fraco, sonoro e agradável, fez a onça cochilar. Ao perceber que a onça havia adormecido, a araponga feriu o ar com a nota agudíssima de seu canto que se assemelha ao malho caindo pesadamente sobre a bigorna. A onça, acordando assustada, deu um grande salto e, é claro, perdeu a aposta. No final de seu memento Hércules previu a destruição das florestas pelo machado e pelo fogo e que os animais que nelas viviam seriam extintos ou se tornariam raros e esquivos. Lembrou que estaria aí a importância da zoofonia, capaz de conservar a exata representação do modo pelo qual esses animais expressavam suas sensações ou modulavam seus cantos. A zoofonia, finalmente, após quase século e meio, se tornou uma ciência e passou a ser conhecida como bioacústica.

2 comentários:

Sonia disse...

Oi Franeto!
Estou pesquisando sobre bioscustica de uma especie... e Gostaria de escrever algo sobre a zoofonia... Sera que nao ha um artigo sobre zoofonia de Hercule Florence?

Sonia disse...

meu eh email eh soninha.st@gmail.com